Ecologias Imaginadas – parte 2: as cracas como Arúspice do presente

Desde a última lâmina d’água que contorna superfícies de materialidades diversas, as cracas tentam inspecionar o que há no fundo d’oceano. Thorácicas hábeis para filtrar informações, verticalizam-se em uma jornada camada à camada desde o fosso do elevador do antigo Hospital implodido na Ilha do Fundão, em direção ao azul mais profundo onde não se pode alcançar a luz.

Para acompanhá-las, visualisámos um mapa batimétrico que na fração de cada cor, revela-nos profundidades diversas e a morfologia do fundo dos oceanos.

Não sendo tal técnica suficientemente satisfatória para as cracas, elas precisam de mais. Se ocupam da sensibilidade como Áruspices ao lerem o’ceano. As cracas examinam e analisam as mudanças da paisagem dos oceanos, assim como os Arúspices eram treinados para leitura de presságios nas entranhas dos animais. No fígado, filtrar e ler pelo fígado.

Essa perfuração hepática é entendida no mapa batimétrico através das cores. As cores nos revelam o estado d’oceano em função da profundidade dos acontecimentos. 

Antes de tudo, imaginou-se a geografia da Ilha do Fundão em período anterior a 1500, antes que as naus circunavegantes passassem por ali.  A metodologia na elaboração do mapa batimétrico está na história da palavra. Ou melhor, na reprodução gráfica a partir de 1500, no feitio do livros e do fazer do mundo unido pela palavra – assim como as cracas. Foi através da arte da impressão que se pode alcançar a distribuição de livros de forma socialmente transformável. E para a construção dos gráficos do mapa batimétrico das cracas, veremos que as respostas estão nos livros, na profundidade das palavras (1).

Analisaremos, assim, algumas palavras aqui. Quantas vezes a palavra Natureza foi referida nos livros desde 1500? Qual o sentido dado à palavra Sociedade para cada período? A palavra Militar carrega em si a violéncia vista nas marcas do território? Qual o jogo cínico presente na palavra Liberalismo? O que é a Infraestrutura narrada em livros que permitem a expansão dos ecossistemas? E por fim, o que poderia estar presente na palavra Extrativismo?

Natureza

O que se vê nessa nova paisagem submersa, é a diversidade da materialidade. 

Na cidade onde montanhas sumiram, aqui podemos nos apoiar em terrenos aterrados e lixões. Neles vemos as sombras das cracas na superfície e a imensidão do lixo a flutuar.

Militar

Muitas das piores interferências na paisagem passaram pelas mãos de militares. Eles não só negaram a vacina, como também negaram a biodiversidade. Negaram, negacionistas, epistemicídas. A ponte Rio-Niterói dá nome a um presidente da ditadura militar, e como todo governo militar, faz do fundão o lugar para os destroços de políticas de pernas secas. Perna-seca foi o nome dado ao anexo implodido do Hospital do Fundão, que mesmo com muitas irregularidades, foi de vontade do governo militar que o projeto avançasse. Trazem como lema a honra, disciplina e lealdade, mas faltam por referir os prejuízos e custos aos cofres públicos de suas estruturas e decisões políticas.

Infraestrutura

O devir da indústria da construção surge na palavra infraestrutura quando o terreno é instável, mas favorável para a manutenção do sistema capitalista. Estas estruturas surgem promovendo a ideia de “modernidade” sobre os pés de muitas pessoas, e nessa nova profundidade, vemos paisagens que desapareceram pela ganância de alguns. Para outros tantos, ficaram as dores e rebeldia. 

Não há embargo e nem força epistemológica que venha impedir as negociações entre as grandes empresas multinacionais e parlamentares associados à “politica do desenvolvimento”, e assim, mantém-se sempre a ilusão de que a construção trará o avanço para todos.

Sociedade

Nessa nova profundidade, percebemos que a sociedade responsável pela organização e produção de conhecimento em livros, por exemplo, também se afundou na burocracia. Aqui encontramos muitas caixas, e mais caixas, de documentos entre mesas e estantes de escritório. Senhas e máquinas do óficio no almoxarifado do fundo d’oceano.

Liberalismo

Nessa cota já perdemos muito da respiração. Com poucas referências após a reforma protestante, o liberalismo desponta na modernidade hegeliana em livros sobre justiça, moralidade, política e economia. A constante ascenção da linha no gráfico nos faz perceber que algumas informações se perderam entre tantas citações, e praticamente quase não se vê o neoliberalismo nesse sistema e a mão invisível do mercado.

Extrativismo

A visibilidade nessa profundidade é mínima. Pouco se vê do brilho das estruturas metálicas que extraem os óleos nesse terreno. Parece não haver fim para o extrativismo. O ativismo sem luz. O que se pode dizer, até o momento, é que o extrativismo avança e só agora as cracas se deram conta.

(1) Apresenta-se aqui o sistema Ngram da plataforma Google cuja função é construir gráficos que mostrem palavras ou frases em corpus de livros ao longo de determinado período. Não havendo a possibilidade de se trabalhar com o idioma português, optou-se, contudo, de propor a visualidade gráfica para as palavras em inglês “nature”, “military”, “infrastructure”, “society”, “liberalism” and “extractivism” para o período entre 1500 e 2019. Para mais informações, consultar: Google Ngram Viewer