O Cerne da Questão

No projeto “O Cerne da Questão” que iniciei em meados de 2016, abordo o tema ambicioso do desenvolvimento urbanístico no sul do Brasil e a história do desflorestamento da Mata Atlântica para se compreender as camadas históricas de poder colonial.

Desde o século XVIII, a indústria extrativa valorizou o uso da madeira dos pinheiros de araucárias para atender à construção civil local tendo como destino obras vulgares ou maiores e públicas, além da construção naval e outros fins de interesse da monarquia portuguesa. O objetivo era abrir estradas para que a recém-descoberta madeira chegasse aos portos, e então, à cidade de Lisboa. Foi assim que as cidades da região ganharam suas primeiras vias e novos povoados desenvolveram-se. A Guerra do Paraguai e, mais tarde, a Guerra do Contestado no início do século XX, influenciaram na economia local, modificando o modelo construído durante décadas pelas diferenças culturais entre o povo guarani, africano e de imigrantes europeus. A implementação de um projeto ambicioso norte-americano de estrada de ferro dividiu culturalmente a região onde o povo que ocupava tais terras se preocupava em protegê-las do avanço liberal apoiado por um Estado republicano e militar.

Tornou-se evidente durante a investigação deste projeto que o Estado fortaleceu a inserção do liberalismo no sul do país, e a Guerra do Contestado registou aproximadamente 10 mil mortos, a maioria dos chamados rebeldes, e assim líderes políticos criaram a ilusão até hoje de uma vitória do Estado diante de “fanáticos religiosos”.

Ou seja, por exemplo, grande parte do acervo de imagens e documentos da Guerra do Contestado foram organizados e “arquivados” pela unidade militar do Estado brasileiro, tendo autonomia para contar a história desta vitória1. Militares e líderes políticos da Guerra do Contestado deram seus nomes às ruas como marcos simbólicos desta história, como as ruas e avenidas da capital Curitiba: João Gualberto (líder militar no conflito), Carlos Cavalcanti (governador do Estado do Paraná) e Marechal Hermes (militar e presidente da República) que delimitam um quadrilátero no Centro Cívico da cidade. Representa-se, assim, em espaço público, vias e monumentos que descendentes dos povos indígenas continuam a não ter lugar de representação simbólica.

Constata-se, assim, o mencionado por Derrida que quem detém o arquivo, detém o poder2. Averiguar a história pouco contada sobre a guerra do Contestado tornou-se uma espécie de autópsia do corpo vivo. Ou seja, fica evidente a presença da unidade militar brasileira sobre os elementos físicos e simbólicos deste conflito quando descobre-se que as Forças Armadas controlavam o espólio das empresas responsáveis por desencadear o conflito (sempre em posição acima do Estado); ou ainda quando se identificou que o material histórico era produzido por teóricos desta unidade protegidos pela neutralidade institucional do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.

É importante destacar que o papel da Forças Armadas do Brasil que proclamou independência com os liberais da economia para a implementação da República, assume posteriormente no período da Ditadura Militar o poder executivo do Estado de forma totalitária, sendo este o período mais nefasto da história recente do país.

E seria neste ambiente republicano e militarizado que se edificam os institutos de História e Geografia em todas as regiões do país com o propósito de preservar a memória e história do património colonial.

No entanto, de acordo com o livro “Contestado” do Coronel Alcibíades Miranda que integra o arquivo do projeto “O Cerne da Questão”, em uma edição comemorativa do conflito escrita pelo militar em combate, pôde-se verificar que o Instituto de História e Geografia do Paraná ainda preservava uma estrutura militarizada no cerne da organização da comissão executiva, mesmo quase 30 anos depois do período de Ditadura Militar e praticamente 100 anos após a Guerra do Contestado. Ou seja, generais, funcionários de cargos importantes nos ministérios durante a Ditadura Militar e até fundador de movimento nacionalista de extrema-direita integraram a diretoria do instituto recentemente, confirmando, portanto, as motivações político-narrativas destes espaços.