Do Alto da Montanha Pode-se Ver Monumentos Invisíveis

De acordo com o pensamento tradicional Aymara, o tempo passado se apresenta sempre à nossa frente como sintoma de reflexão para o que é o presente, deixando às costas o que ainda não se vive, o tempo futuro; uma ideia de tempo bastante distinta da moira da historia do pensamento ocidental. Dessa forma, este projeto pretende buscar, passo-à-passo, acontecimentos do passado para a reconstrução da memoria coletiva com o objetivo de nos salvaguardarmos dos infortúnios, prejuízos e crimes, estes manifestados pelo sistema capitalista, colonial e patriarcal.

Para esse Do Alto da Montanha Pode-se Ver Monumentos Invisíveis (DAMPVMI), elaborarou-se, em dois momentos, em dois dias, uma reflexão sobre o sistema atual da industria extrativa de óleos e os próprios impactos destrutivos à natureza e sociedade, passando também pela industria do turismo marítimo/navegável em transformação na cidade do Porto.

Utilizando-se das praticas performativas de talking e walking, este trabalho de guided tour performance, em um primeiro momento, no dia 23 de novembro, os participantes se reuniram em um ponto alto da cidade do Porto, o Espaço Musas, para uma conversa em torno do tema da indústria extrativa de óleos. Em um exercício de reconhecimento da paisagem, do alto da montanha, observamos na própria paisagem a estrutura cartográfica do sistema que abriga e sustenta esta indústria que oprime povos e comunidades além da linha abissal. Falaremos de temas como as práticas de fracking, extração de óleos em alto mar, globalização, transporte e logística, da ideia de produção e consumo. Do alto da montanha, no horizonte, encontraremos as imagens do presente que nos envolve e nos afasta.

Em um segundo momento, no dia 24 de novembro, dessa vez na latitude mais baixa da cidade, junto ao mar, nas avenidas Norton de Matos e Montevideu, percorremos um trecho de 2 quilómetros para perceber a história do navio petroleiro dinamarquês Jacob Maersk que no dia 29 de janeiro de 1975 explodiu com 50 mil toneladas de petróleo próximo a orla das cidades de Matosinhos e Porto, cobrindo as cidades com uma fumaça tóxica e fortemente prejudicial à saúde. Além disso, este acidente foi responsável pela destruição da biodiversidade marinha e terrestre, chegando as espessas massas de petróleo até a faixa de praia em poucos dias.

Seguindo a orla nessa proposta de walk performance de reconhecimento deste fato de crime ambiental, distribuimos diferentes marcos a cada 260 metros (comprimento do navio petroleiro) que nos ajudaram a reconstruir este monumento invisível que nos permite perceber, entre tantas coisas, o contexto moderno português desde a entrada na União Europeia até as mudanças de paisagem, hábitos culturais e sociais da região. Assim, junto ao mar, pudemos imaginar um futuro.